sexta-feira, 18 de outubro de 2013

EU





EU


• Eu sou a que no mundo anda perdida, • Eu sou a que na vida não tem norte, • Sou a irmã do Sonho, e desta sorte • Sou a crucificada… a dolorida… • Sombra de névoa ténue e esvaecida, • E que o destino, amargo, triste e forte, • Impele brutalmente para a morte! • Alma de luto sempre incompreendida! • Sou aquela que passa e ninguém vê… • Sou a que chamam triste sem o ser… • Sou a que chora sem saber porquê… • Sou talvez a visão que Alguém sonhou, • Alguém que veio ao mundo pra me ver • E que nunca na vida me encontrou!




Pupilas são agulhas


Várias vezes durante o dia seu olhar fica ancorado no vazio. Fisgado em redondilhas em torno de um nada que continua aguardando a imagem que nunca encontrou artimanhas para como que materializar-se. A respiração trava pela superfície. Ele ainda é jovem. Nem sequer adivinha quão inútil é escapulir-se da sensação de espanto fincada pelo seu de-dentro. Ele quer ser feliz. Como dizer pra quem olha o horizonte com tamanho afinco que cedo ou tarde a contaminação sorrateira tomará conta de seu corpo. Seu real está amordaçado a uma lembrança convenientemente fugidia. O impulso foi dado com o murro que seu pai deu em sua mãe. Tinha quatro anos quando a queda iscou-lhe uma fundura cada vez mais íngreme. No dia seguinte sua mãe atestou de pés juntos que tudo o que ele viu na verdade não aconteceu. Queria mais uma chance. Esqueceu - enquanto o buraco movia-se pelo escuro. Move-se. Mandíbula descascando dentes. Tornou-se uma testemunha ocular indesejada. No início era sempre durante a noite que o farol dava sinais saltados de vida. Agora, a qualquer hora do dia. Com os passos dos anos a ameaça manteve-se constante. Onde pupilas são agulhas. Pele é baque. Som sobressalto.

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